| As Desfolhadas, o Apupar às Raparigas e o Lobo |
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| 03-Abr-2007 | |
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AS DESFOLHADAS, O APUPAR ÀS RAPARIGAS E LOBO (Por Félix Vieira - ) Como era hábito em Aboim da Nóbrega, o trabalho cansativo começava bem cedo, quer fosse nos campos, nos montes ou em qualquer outra actividade. E não se pense que o dia de trabalho acabava com o cair da noite, porque conforme as épocas do ano, tinham lugar à noite as idas aos moinhos para levar o milho para moer ou trazer as farinhas lá moídas, as espadadas (espadeladas) do linho e outros tratamentos que o mesmo exigia e fiar com as rocas características, nas mãos de pessoas há muito tempo entendidas nesse manuseamento. Outra actividade que também se prolongava pela noite dentro, conforme a quantidade de milho ou o grande número de pessoas, umas para desfolhar e outras simplesmente para se divertirem. Como é sabido, havia as regras para quem encontrasse o milho rei que impunham os beijinhos, bem como outras lutas e brincadeiras bem próprias das noites da DESFOLHADA que proporcionavam noites divertidas e bem agradáveis para a maioria das pessoas. Embora, bem divertidas e agradáveis, como eram as desfolhadas do meu Avô materno em Barjes, muito trabalhosas para mim e minha Mãe, mesmo que fosse tarde e já estivessemos cansadíssimos, tinhamos de regressar à nossa casa no lugar do Tojal, a onde nos esperavam os meus irmãos ansiosos por nos ver chegar com alimentos, o que procuravamos fazer pelo caminho mais curto, indo pelo carreiro que atravessa o Rio Vade na ponte junto aos moinhos de Barjes para o Souto. Fazíamos este percurso muitas vezes, eu e minha Mãe, sempre conversando um com o outro ou a dar atenção aos apupos às raparigas com aquelas gargalhadas (gasgalhadas, como dizia a minha Mãe). Numa noite, em que mais uma vez fazíamos este percurso, já bastante tarde, caminhado na noite escura que arrepiava naquele carreiro, em vez de ouvir as habituais "gasgalhadas", ouvimos foi repetidos gritos assustadores vindos dos campos de entre o frondoso das árvores. Aquele local já tinha fama de pôr medo, ao fugirmos, ora ia eu na frente, ora passava a minha Mãe. Chegámos ao Souto num ápice, a onde as pessoas, alertadas pelos nossos ritos, já se encontravam no caminho, vindo ao nosso encontro. Minha Mãe, com muita dificuldade em falar, lá ia dizendo que lhe parecia terem sido gritos de almas de outro mundo. Outras pessoas conjecturavam outros cenários. Eu perdi o pio, mas não sujei as cuecas, verdade verdadinha, é que eu também não sabia o que eram cuecas… Mais tarde, a minha Mãe ficou a saber quem nos tinha pregado a partida, porque o figurão, como dizia minha Mãe, tinha-se gabado disso numas das conversas de taberna na companhia de uns cartilhos (quartilhos). A partir daí fiquei com mais um medo, é que minha Mãe andou a ver se o apanhava a jeito para lhe dar "um tratamento" e eu sabia que ela era mulher com genica para isso, mas temia as consequências que daí poderiam advir. É evidente que tínhamos outro caminho para vir para o Tojal, que era pelo Adro da Igreja, mas demorava mais tempo por ser mais longo, não menos frondoso e com o inconveniente de termos de passar junto ao cemitério, o que à noite nos impunha um certo respeito, de nos por os cabelos em pé (medricas…), o que levou a que tivessemos de recorrer ao carreiro habitual e como o meu Pai se encontrava a trabalhar em Vila Franca de Xira, não podiamos beneficiar da protecção dele junto de nós. Não sei explicar se o meu Pai tinha ou não algum medo de andar de noite, a verdade é que andava e muito e para os mais diversos locais da freguesia ou outros, para quem conhece Lameiras, Casais de Vide, campos do Sadas, Coutada, poças de Caboucos para regar de noite, Monte do Padral como quando ia a Ponte da Barca por motivos de doença ou para as feiras, chegava a andar por esses locais e sozinho, muitas vezes depois da meia noite, isto não porque ele se gabasse, mas porque muitas pessoas o diziam. O meu Irmão Manuel, mais novo que eu, que Deus o tenha em descanso, bem como os meus Pais, também era muito corajoso tal como o meu Pai. O Manuel chegava até a fazer apostas de entrar em certos sítios, a horas que poucos se atreveriam, como por exemplo, à meia noite em ponto, subir no muro do cemitério e dar lá umas certas voltas sem cair ou desistir. Eu também tive uma peripécia, quando fui surpreendido por um Lobo, mas da parte da tarde e ainda era dia, quando num dia vinha do Sadas, ao passar ao pé da Coutada, pressenti uns movimentos por entre as giestas, um pouco mais a baixo vi a cabeça de um Lobo entre elas, olhei para os campos do meu lado esquerdo na descida, vi um castanheiro, que são difíceis de subir, mas eu pus-me lá em cima num rápido. Estive lá em cima algum tempo que me pareceu uma eternidade, cada vez mais assustado e sem saber se era mais que um Lobo. Quando a seguir, o avistei num cabeço sobranceiro às poças de Caboucos, desatei a correr pelo caminho a baixo em direcção a casa, no Tojal e sempre a olhar para todo o lado. Ao passar junto às poças de Caboucos estava lá um homem de sachola na mão que, ao ver a aflição com que eu corria, fugiu também e na Tomada deve ter virado para o Souto. Mas o mais forte fui eu a fugir, que cheguei primeiro a casa. Meu rico Castanheiro…
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