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A Fé, a Música e a Escola versão para impressão enviar por e-mail
19-Nov-2006
A FÉ, A MÚSICA E A ESCOLA (Por Félix Vieira)

Minha Mãe, que não sabia ler, era católica praticante, criou 6 filhos (embora o meu irmão Domingos tenha falecido pelos seus dois anos de idade). Deu-nos os princípios, conforme os que tinham também sido dados a ela e levava-nos sempre para as missas e outros actos religiosos naquele Igreja de Aboim da Nóbrega, por dentro, ainda mais bonita.

Igreja essa que por ocasião de festas ou romarias caprichava mais nos seus adornos de usos e costumes. Um dos costumes era a presença de um altifalante (aparelhagem sonora alimentada por gerador, não havia lá electricidade), vindo de outra freguesia, contratado para o evento e era colocado na torre dos sinos, de véspera.

Eu ao avistar os homens que, por cordas puxavam os altifalantes para o cimo da torre (que ainda eram uns caixotões grandes em madeira), não mais parava em casa, esquecendo as consequências e colocava-me sempre de forma a ter os melhores ângulos para não perder pitada do que ali se fazia, como funcionava, como fazia o senhor que na Sacristia metia discos e falava ao grande microfone.

Aconteceu nalgumas vezes em que os senhores foram tomar umas malguinhas do berde (verde), o meio cartilho, eu ao aperceber-me que os discos estavam a acabar de tocar, ia lá e colocava outro no gira-discos. Algumas vezes fui surpreendido em flagrante, mas a reprimenda, foi só, um afagar de cabeça. Talvez isto tenha contribuído para que uma das profissões que exerci em adulto, tenha sido a de Radiotécnico.

As festas eram também abrilhantadas por bandas de música, que vinham em diversos anos de várias freguesias. E tinha-mos a nossa própria Banda Musical de Aboim da Nóbrega. Lembro-me de reparar que o Sr. Padre António meteu mãos à obra em volta da Banda e também promoveu o ensino de música.

As outras músicas que ouvia na freguesia eram as tradicionalmente ouvidas aos Aboinobrenses que as iam transmitindo aos vindouros. Mas aqui, há concerteza possibilidade de se ser melhor esclarecido pelo Sr. Padre António que agora está colocado em Vila Verde, pela Sr.ª Dona Maria do Carmo Reis (Dona Carminha) com a luta pelos ranchos e outros empreendimentos bem patentes em Aboim da Nóbrega e muitas outras pessoas com ricos conhecimentos das tradições musicais e/ou usos e costumes da minha terra.

A minha entrada na vida escolar, deu-se quando eu já tinha quase 8 anos de idade. Nesse ano, ainda só havia escola para rapazes e todas as classes eram ensinadas em simultâneo, desde a primeira até à 4.ª classe, e nessa altura ainda se tinha de fazer o exame da terceira. Poucos eram os que seguiam até à 4.ª classe, que também tinha exame.

O meu primeiro Professor, que morava em Barges, próximo da "minha amiga figueira", era um homem muito austero, castigava muito e ainda era mais severo quando castigava os seus próprios filhos, na mesma sala de aula, que era aonde é agora a Junta de Freguesia.

Veio depois um outro professor, também um pouco prepotente, eu ainda levei alguns bolos dele (reguadas), para além de umas canas ou vara pela cabeça abaixo, mas vá lá… por outro lado, compensou-me ensinando-me a escrever o meu nome assim: Feliz (Félix).

A seguir, deu-se uma reestruturação escolar. E foi quando Pico de Regalados, Beneficiou culturalmente Aboim da Nóbrega com a vinda de duas filhas da família Reis para exercer a profissão de professoras em Aboim da Nóbrega.

Por sorte minha, coube-me ficar com Dona Carminha que dava aulas a rapazes (só rapazes) no turno da manhã e sua irmã ficou a dar aulas da parte da tarde a raparigas. Pela primeira vez na freguesia as raparigas tinham aulas, mas continuavam as diversas classes a ser leccionadas em simultâneo (da 1.ª à 4.ª).

Depressa me apercebi das qualidades de Dona Carminha. Ela não viu nas pessoas só a necessidade de aprender a ler, haveria de fazer tudo o que humanamente lhe era possível, para que cada um criasse possibilidade de sair da fome. Claro que o aprender a ler vinha ajudar a entender muita coisa. Mas ela sabia que não bastava, meteu mãos na cultura, metendo-se no meio de nós com um modo muito próprio de nos entender e se fazer entender, sem nunca ter usado a arrogância ou a prepotência, e a cultura começou com toda a sua dedicação, a dar os primeiros passos.

Teatro, sim senhor, TEATRO, e eu até sou prova disso. Não mais esqueci, o papel que interpretei no Coreto do meu Adro perante os meus conterrâneos, ali todos atentos e admirados. Recitei o texto que Dona Carminha escolheu para mim e caracterizando-me com uma roupinha a seu gosto:

"Um velhote jovial

ao passar no Arsenal

levou num parietal

com um forte saco de sal

que lhe causou a morte fatal.

Após o funeral

o parente principal

fez o discurso usual:

Aqui jaz José Pascoal

nascido na capital

e morto no Seixal

num dia de Carnaval"

 

A minha aprendizagem fazia-se com muita dificuldade, não conseguindo eu para estudar, ler durante muito tempo, porque a vista chorava-me, as letras pareciam mudar de cor para verde e amarelo e eu deixava de as diferenciar e parava. Recorria então à audição do que os meus colegas diziam ou faziam e assim ia caminhando. E foi por causa da minha situação que eu achei vantagem nas aulas das diversas classes em simultâneo, ia aprendendo nas primeiras classes o que me viria a ser útil nas seguintes.

Minha Mãe tentava tudo para arranjar comida para os filhos, levando-nos com ela para junto das pessoas para onde ia trabalhar, só a troco de alimentos, mas também tinha-mos que trabalhar ao lado dela.

Eu levei porrada por ir para a escola. Explicando melhor, era vulgar que chegassem a roupa ao pelo dos que faltassem à escola. Eu levava porrada quando, em vez de obedecer a minha Mãe indo com ela, fugia para a escola. Depois acontecia que quando chegava a casa não tinha nada para comer, para já não falar naquelas alturas em que quando algum irmão meu chegasse primeiro comia tudo, e não era muito, bem como, depois experimentar os "carinhos" de minha Mãe, pagando a desobediência.

Um dia minha Mãe usou de uma estratégia. De véspera disse-me, "amanhã quando acordares preparas a tua irmã (minha irmã Rosa que nessa altura teria os seus 2 anitos) e vai ter ao Paizinho, ouviste?" (paizinho, era deste modo que nos dirigia-mos aos nossos avós, neste caso o avô materno).

No dia seguinte, botei (coloquei) a minha cabeça para pensar e encontrei, quanto a mim, uma solução melhor. Preparei minha sacola de ganga que meti a tiracolo, peguei na minha irmã Rosa às cabalitas que se segurava com as suas mãozitas na minha cabeça e lá caminhei para a escola na intenção de quando ali chegasse lhe dar a mão e entrar na escola. Mas já lá cheguei atrasado, estava toda a gente já lá dentro, incluindo a Sr.ª Professora, Dona Carminha. Ao constatar a situação até me esqueci de descer minha irmã das cabalitas e entrei assim mesmo pela escola dentro, com todos a olhar para nós, incluindo Dona Carminha, observando muito calma, como se não estivesse estranhando nada. Lá me sentei na carteira, sentei minha irmã ao meu lado direito, tirei as minhas coisas da saca e pouco depois oiço dona Carminha: "meninos vamos continuar". Voltou a referir-se à matéria que estava a ser dada, percebi nitidamente que era para me introduzir na aula em questão. Os seus olhos, nessa manhã, falaram muito comigo e minha irmã.

Na hora do recreio dialogou connosco. Fui com minha irmã até ao recreio, mas sentamo-nos logo encostados à parte lateral esquerda da Igreja, abrigados do vento entre a torre dos sinos e a capela, apanhando sol e poupando-nos a esforços de brincar, pois a fome estava sempre presente. Dona Carminha tratou de mandar recado a minha Mãe e providenciou alimentos para nós - não conheço o teor da conversa havida com minha Mãe.

Algum tempo depois, vi pela primeira vez o Mar, também graças a Dona Carminha, que organizou uma excursão até Póvoa do Varzim, e estivemos noutras zonas bem bonitas do meu Minho e ainda hoje não sei quem pagou esta excursão.

Com o aproximar dos exames, Dona Carminha resolveu dar aulas também da parte da tarde para afinar melhor os que iriam a exame, no Adro ao ar livre ou dentro da Casa das Almas, (onde hoje está a Associação Cultural, numa sala onde a Banda de Música realizava os seus ensaios, do lado esquerdo), do lado direito morava Dona Carminha e sua irmã, creio que de nome Dores.

Foi nesta casa, que me deu alimentos muitas vezes, até lá dormi quando mais perto dos exames da 4.ª classe e quando chegou a véspera do exame, numa escola em Pico de Regalados, levou-nos para irmos treinando e vendo como era. Também não sei quem na altura pagou estes transportes.

Quando estava para começar um exame (nesse dia de véspera) da turma das raparigas, veio alguém cá fora dizendo "precisamos de mais um aluno para completar os lugares" e perguntou a Dona Carminha se queria indicar um aluno dos seus. Dona Carminha olhou para nós, foi-se aproximando de mim de tal modo, que ainda hoje estou a recordar a doçura da sua pergunta "Queres ir tu Félix?". Nem pestanejei ou sequer me lembrei que pela primeira vez ia estar numa sala de aulas no meio de raparigas (moças, como se dizia em Aboim).

Ao constatar que tinha ficado aprovado, o contentamento foi duplo. Estava estampado no rosto da minha benfeitora a alegria dos frutos de bem fazer. Não sabia ela na altura que, também, me tinha aberto a possibilidade de vir para junto do meu Pai em Vila Franca de Xira, e assim, deixar de passar fome.

Nesse mesmo dia fiz uma carta a meu Pai, que me havia prometido que, se eu fizesse a 4.ª classe me trazia para Lisboa. Na sua carta de resposta vinha um balde de água fria - "parabéns por teres ficado bem, mas ficas aí que estás muito bem". Pouco tempo depois descobri o porquê do "ficas aí que estás muito bem".

Catorze dias depois do exame, um irmão de minha Mãe (tio Manuel) que estava cá de férias pela primeira vez depois de ter emigrado para o Brasil e lá ter casado com uma Senhora italiana, senhora muito fina e ainda com sotaque italiano, já não eram muito novos e não tinham filhos, tinham ido ali num carro que lhe tinha sido emprestado em Lisboa pelo marido de minha tia Laurinda, irmã de minha Mãe e se prontificou a dar-me boleia até ao meu Pai em Vila Franca de Xira.

No dia marcado para virmos, caminhamos até Portela do Vade, cerca de 5 Km, porque nessa altura ainda não havia estrada para Aboim, pelo que o carro tinha ficado guardado dentro de uma propriedade do Senhor Dias de Baixo (na Portela).

Eu trazia umas botas daquelas que meu Pai, numa das suas idas a casa (férias), me comprou na feira de Ponte da Barca aonde eu me perdi dele, mas ele estava semi escondido a ver o que eu fazia, quando me faziam perguntas eu só dizia o nome do meu Pai. O susto passou pouco depois. Injorcaram-me com umas roupitas que alguém me deu e lá viemos por aí a Baixo.

Meu tio resolveu pernoitar numa terra chamada Mealhada. Ao jantar tirei a barriguinha de misérias. De seguida deparei-me com uma cama como eu nunca tinha visto, com uma roupa a cheirar a lavado. No dia seguinte para o pequeno almoço, mais uma surpresa agradável, tanta coisa para comer, comecei dum lado.

Logo de manhãzinha fizemo-nos à estrada. Paramos ainda no caminho. Meus tios tomaram seu chá eu escolhi um bruto bolo. Pouco depois chegamos a Fátima, que na altura também chamavam de "Altar do Mundo". Meus tios tinham ali algo a cumprir, após o que seguimos para me entregarem ao meu Pai, em Vila Franca de Xira. Ali chegados, meu Pai embora muito surpreendido recebeu-nos bem, convidando logo os meus tios a almoçar lá, o que aceitaram. A mim levou-me para a cozinha, mandou-me sentar e pôs-me logo um grande prato de Dobrada à Portuguesa na frente e arroz branco noutro prato. Comi tanto que até o estômago me doía de tão cheio.

Meu Pai era ali o chefe de cozinha. Depois de eu comer disse-me "agora que já comeste vou aqui ao lado à estação comprar um bilhete de comboio e voltas para a terra", quando eu disse que não queria ir, meu Pai reafirmou "vais nem que seja um polícia a acompanhar-te". Pouco depois passa o patrão que disse, "eu não tenho trabalho para ele, mas dê-lhe de comer e diga à empregada Maria José que prepare um quarto para ele lá no sótão ao pé do seu". Vi que o patrão estava no Bar, muito atarefado e eu fui logo lavar a loiça que ele precisava. Aproveitou logo para me ensinar como se fazia, admirou a partir dali o meu trabalho. Nesse dia os outros colegas de meu Pai fizeram como que uma barreira em volta dele e conseguiram que ele não me recambiasse para a terra. Claro que eu depois descobri porque é que ele fez tudo isto.

Essa chamada Pensão Ribatejana ainda existe. Na altura era composta de 24 quartos, um restaurante, um café, um bar e uma taverna (taberna). Eu cheguei a trabalhar em todas estas valências, incluindo a cozinha e a copa a lavar pratos, e só comecei a ter ordenado cerca de um ano depois, mas já tinha começado a ter gorjetas. Fiz ali grandes e bons amigos, principalmente entre os adultos, pois eu era um rapaz muito precoce.

É claro que, na altura em que eu fui às cerejas, é bom de ver que, o que minha Mãe teria era fome e não, os desejos mais próprios do início de uma gravidez.

Também me é fácil perceber que, o que minha Mãe sofreu para criar os filhos, como muitas mães lá em Aboim da Nóbrega sofreram, dariam personagens de muitos romances e se para além de minha Mãe eu tivesse de destacar mais alguém, elegeria Dona Maria do Carmo Reis (Dona Carminha)

Depois de eu começar no mundo do trabalho, sem ordenado, na Pensão Ribatejana, em Vila Franca de Xira, pôs para mim como primeira tarefa, mandar dinheiro a minha Mãe. Tive sorte, começaram a dar-me gorjetas, em 2 dias por semana que ia para a secção do Café trabalhar das 08h00 até às 24h00, aí fui juntando e sempre que chegava à nota de 20$00 (vinte Escudos, hoje 10 cêntimos de €) eu lá ia a correr aos correios enviar à minha Mãe.

Pouco tempo depois, fui tirar o meu primeiro retrato do tamanho de meio postal e só um, porque o dinheiro não deu para mais, logo enviado a minha Mãe e que ela manteve sempre com muito carinho e agora está num lugar de destaque no quarto de minha filha. O retrato do "puto", como dizia minha Mãe, sorrindo.

 

 

 

Destaques

A Romaria de São Bartolomeu foi sempre uma festa com muita afinidade para os Aboinobrenses. Poderão ser enumeradas algumas razões, nomeadamente a curta distância e a romaria ter uma cultura muito próxima daquela que o povo de Aboim exalta, mas a principal é, para nós, os laços afectivos derivados do facto das Terras da Nóbrega, quase todo o actual concelho de Ponte da Barca, terem dependido de Aboim da Nóbrega, que foi sua sede mãe. Consequentemente, é comum os Aboinobrenses participarem no São Bartolomeu em elevado número. Abaixo embebemos vídeo de Diogo Santos, com a Rusga de Aboim que participou no Encontro de Rusgas do São Bartolomeu na noite do passado dia 23 de Agosto.

 

CHAT

Latest Message: 3 hours, 36 minutes ago
  • [GUEST]guest_2502 : Boas noites people
  • [GUEST]guest_5103 : O Dom João pelo menos nasceu e cresceu em Aboim da Nóbrega, elevando o nome de Aboim bem alto
  • [GUEST]guest_5103 : E o que fez ou deixou Sá de Miranda a Vila Verde ou a alguma das suas freguesias?
  • [GUEST]guest_8395 : que fez Dom João de Aboim por Aboim ???? ou por Vila Verde??? deixou alguma obra feita em seu nome????
  • [GUEST]guest_8395 : quêm é Dom João de Aboim????? eu não o conheço
  • [GUEST]guest_5790 : Bom dia
  • [GUEST]guest_9111 : E Dom João de Aboim tb merece
  • [GUEST]guest_818 : Sim senhor...
  • [GUEST]guest_9103 : Parabés à Banda de Aboim!
  • [GUEST]Al : ai .ai.ai.a escola  està  ai a porta bom dia para a aboim
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